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domingo, 25 de outubro de 2015

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

INTERAÇÕES ESTÉTICAS E A INTERCULTURALIDADE NA CERÂMICA PATAXÓ.

INTERAÇÕES ESTÉTICAS E a
Interculturalidade na cerâmica pataxó.

Paulo Roberto de Souza[1]

Este trabalho teve como foco a preservação da cerâmica como patrimônio imaterial. Tratou-se inicialmente de uma experiência de interação estética, mas assumiu caráter multidisciplinar, voltado especialmente ao barro e a arte cerâmica, atuando no fortalecimento da cultura imaterial Pataxó por meio de diversas ações em favor dos saberes e fazeres, relativos à cerâmica e ao barro, suscitando o reencontro com a “celebração do barro”, uma cerimônia ancestral, cuja prática resgatada, se encontra novamente em atividade na aldeia.
A ação se deu em caráter intensivo e durou cerca de 4 anos, recebendo diversos prêmios em editais estaduais e nacionais durante esse período.

Palavras-chave: Cerâmica; indígena; cultura; imaterial; saberes; fazeres, Pataxó

Contemporânea do fogo, a cerâmica, do grego "kéramos”, ou "terra queimada" é um material de grande resistência, sendo frequentemente encontrado em escavações arqueológicas, o que para os povos indígenas, constitui-se em uma prova irrefutável de seu real direito à terra.
Assim, a cerâmica “fala” sobre identidades, vem acompanhando a história do homem, deixando pistas sobre civilizações e culturas que existiram a milhares de anos antes da Era Cristã. Até hoje, é praticada em algumas aldeias, da mesma forma cerimonial e tradicional que no passado. Além de sua utilização como matéria-prima em diversos utensílios domésticos; ela é utilizada na construção civil e como material plástico para artistas, inclusive sendo utilizada na tecnologia de ponta, mais especificamente, na fabricação de componentes de foguetes espaciais, justamente devido a suas propriedades e sua durabilidade.

"O primeiro artesão, foi Deus, que depois de criar o mundo, pegou o barro e fez Adão." (Ditado popular paraibano).

Para os Pataxó, e nas palavras de Nayara Pataxó, importante liderança da aldeia da Jaqueira:

_ “Quando Niamissum criou o mundo, ele fez a terra e toda a natureza. Criou os rios, a floresta, os animais, mas ele precisava de alguém para poder cuidar da sua criação. Um belo dia formou-se no céu algumas nuvens de chuva e ao primeiro pingo d’água que caiu na terra, sobre o barro criou uma primeira pessoa, que foi um índio, e esse índio Niamissum falou que ele ia se chamar Tcho Phay, e que ele ia cuidar de toda sua criação, ia passar todo conhecimento e sabedoria pra ele cuidar da sua criação …e daí Tcho Phay falou pra Niamissum que ele sozinho não ia poder cuidar de tudo porque a terra era muito grande e ele não ia poder cuidar de tudo e falou que precisava de mais pessoas com ele e ai começou a cair mais pingos de água sobre a terra e ai foi espalhando na terra toda, e ai foi formando as aldeias né, mulheres crianças e assim foi surgindo né o povo indígena, inclusive os Pataxó e o barro passou a ser uma coisa de grande importância pra nós indígenas”. ¹

¹- Trecho do filme Pataxó: Celebrando o Barro Celebrando a Vida.

Vários estudiosos confirmam ser, realmente, a cerâmica a mais antiga das indústrias. Ela nasceu no momento em que o homem começou a utilizar-se do barro endurecido pelo fogo. Esse processo de endurecimento, inicialmente obtido casualmente, multiplicou-se, e a medida de sua prática a cerâmica passou a substituirdiversos utensílios, a pedra trabalhada e a madeira e aqueles feitos de frutos como o coco ou a  cabaça, por exemplo.
Nas palavras do antropólogo alemão Franz Boas:

“Qualquer um que tenha vivido entre as tribos primitivas, compartilhado suas alegrias e seus sofrimentos, que tenha conhecido com eles seus momentos de provação e abundância, e que não os encarem como simples objetos de pesquisa, examinados como célula num microscópio, mas que os observe como seres humanos sensíveis e inteligentes que são, admitiria que eles nada possuem de um “espírito primitivo, de um “pensamento mágico” ou “pré-lógico” e que cada indivíduo no interior de uma sociedade “primitiva” é um homem, uma mulher ou uma criança da mesma espécie possuindo uma mesma forma de pensar, sentir e agir que um homem, uma mulher ou uma criança de nossa própria sociedade”.(Boas,Franz Arte Primitiva, 1927)


A partir dessa reflexão percebemos a importância da oralidade, e  das palavras de Dona Nêga ganham contornos de achado etnológico, sendo ela, o elo dos saberes da cerâmica Pataxó na aldeia da Jaqueira, e que encontra-se em idade bastante avançada (97 anos). Daí a relevância da preservação desse registro e a proposta de documentar esse processo também em audiovisual, o que tornou-se importantíssima para toda a comunidade Pataxó, não só da aldeia da Jaqueira.


Dona Ana da Conceição A. dos Santos – Takwara Pataxó –
Vó Nêga é anciã Pataxó e foi uma das últimas de sua etnia, a ter contato com a cerâmica tradicional
(foto moldando uma panela de barro durante a pesquisa em Porto Seguro -2011).



[1] Pesquisador LEAA Laboratório de Etnomusicologia, Antropologia e Audiovisual; bacharelando Bacharelado interdisciplinar em cultura linguagens e tecnologias UFRB. rakupralua@gmail.com.